Archive for 19 de setembro de 2008

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O amor

19/09/2008

O amor é uma das chamas que, ligado ao erotismo, funda a condição humana. Ele eleva o humano acima da animalidade; é domesticação do instinto animal. Ele é uma das formas da vida se elevar em busca do sublime e da perfeição.

O amor é uma invenção humana que, por sua vez, reinventou a humanidade. Essa emoção faz o homem ser humano, demasiada humana. Mas falar de amor exige uma compreensão não intelectual, mas sensitiva: “saber dos sentidos”, como diz Octávio Paz, poeta mexicano.

O amor é vital para o ser humano. O escritor Jorge Luis Borges considera que é até possível viver sem ódio, mas que é impossível viver sem amor. Octávio Paz diz que “o amor nasce da visão do belo” que está no outro. Isso demonstra que ele é, essencialmente, relacional: considera sempre o outro ser para existir. O amor se constrói no processo de construção da imagem que fazemos do outro. Nunca amamos uma pessoa como ela é, mas amamos nela a imagem que dela fazemos. Amor é imagem transfigurada do outro. Essa imagem não é ilusória, pois aquilo que nos fere e nos cura não pode ser considerado ilusão. O amor sempre carrega uma dose de ilusão e a maior de todas as ilusões é a de achar que sempre vai ser perfeito o outro e a relação. Assim, o fenômeno do amor não deixa de se configurar como uma realidade transumana.

Somos imperfeitos e em tudo que fazemos podemos expressar nossa imperfeição, nossos defeitos. A pessoa amada, ao certo, também é imperfeita, mas o amor é o sonho da perfeição. Amamos um ser imperfeito como se fosse perfeito. Talvez seja por isso que numa relação amorosa os defeitos dos amantes sejam imperceptíveis, ou tão intoleráveis entre eles. Quem ama vê o ser amado como um ser especial, porque foi ele, e não outro, que o fez passar pelo que está passando.

O amor surge no encontro com o outro. Podemos amar uma pessoa porque ela é parecida conosco ou por ela ser o oposto do que somos – o que pode parecer um amor narcísico de buscar o eu nos outros. Mas ele pode surgir também da necessidade de dar ou receber proteção, afeto, carinho, atenção etc.

O amor muda com o tempo assim como a vida muda para continuar existindo. Amor forte é aquele que muda constantemente de estado sem mudar de objeto amado. O amor muda mesmo que não se mude de amor. Por mais que o mesmo se transforme, ele nunca deixa de ser o que é: desejo de comunhão, compartilha, desejo de si no outro e do outro em si. No amor é melhor o movimento do que a estabilidade. O amor que não se renova não sobrevive.

É importante não confundir o amor com o desejo. O homem é, sem dúvida, um ser desejante. Deseja inclusive ser desejado pelos outros. Desejo é busca do que falta, é busca do melhor e do mais belo. Se o amor nasce da visão do belo, o desejo nasce dessa visão e da necessidade de possuir o belo nem que seja por um instante. Isso explica porque as pessoas bonitas são tão desejadas e idealizadas para o amor. Nessa perspectiva, a beleza é a promessa do prazer e o prazer a porta aberta para a felicidade. É possível amar e desejar a mesma pessoa, mas também é possível amar uma pessoa e desejar outra. Como diria Paz, desejamos um corpo, mas nos apaixonamos por uma personalidade. Quem ama não se contenta com momentos. Quem ama sente o desejo do sono compartilhado.

Amar é um risco. Quem ama deseja ser amado. Quem ama pode não ser amado. A pessoa amada pode passar a amar outro. Assim, a fonte de nossa felicidade e prazer pode se tornar a fonte de nosso sofrimento. Não existe amor sem um pouco de sofrimento, de preocupação e de conflito. Amor não é o paraíso, mas o sonho e a busca de um paraíso. A grandeza de quem ama é ter a coragem de arriscar, de fazer dos problemas uma forma de reviver o amor e de reinventar a relação. Somos muito mais humanos com esse sofrimento do que sem ele.

Para amar é necessário se amar. Quem ama tem que se enfrentar para viver seu sentimento. Amor é aceitação do outro em si e de si mesmo. Quem sente amor sente a si mesmo sentindo o outro em si. Só quem ama sabe compartilhar, receber e dar ao outro o que é importante para os dois.

Não há amor sem abertura, brincadeiras, jogos, ciúmes, briguinhas e diálogos. Os pequenos detalhes de uma relação são mais importantes do que os grandes acontecimentos. O amor é sempre mais complexo do que suas expressões. Amar intensifica a vida. O amor é por excelência indizível e em parte incompreensível. Ele é um enigma que, decifrado, perderia o encanto. Sobre o amor só podemos dizer que nem tudo pode ser dito. Amar nos ensina a viver uma outra vida e a despertar o humano que em nós habita. O amor é sonhado e desejado por todos, mas são poucos, muito poucos, que vivem realmente um amor.

É importante sermos eternos aprendizes das lições que, através do amor, a vida nos ensina.caminho

Ailton Siqueira


Profº assistente do Departamento de Ciências Sociais na Uern e membro do Grupo de Estudos da Complexidade (GRECOM/UFRN).
Imagem: O nascimento dos desejos líquidos – Salvador Dalí

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Roupas novas

19/09/2008

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.caminho

Fernando Pessoa

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Só esqueceram de me avisar que eu tinha que me desapegar tão rápido.