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Fracasso (última parte)

24/09/2008


Texto de Eugenio Mussak

Fazendo conexões

Então, atenção – o passado não deve ser compreendido apenas em seus próprios termos, mas também em termos das percepções do presente. Portanto, alterações na experiência presente modificam o significado do passado. Como assim? Deu “tilt”? Então preste atenção: à medida que amadurece, o ser humano vai transformando a maneira de ver o mundo, pois sua escala de valores sofre modificações naturais. O que parecia ter importância aos 17 anos, aos 32 pode parecer ridículo. E vice-versa.

Obedecendo ao mesmo raciocínio, quando terminamos o colégio, não temos preocupações que passamos a ter quando terminamos a faculdade. Nada mais lógico, pois a idade muda os centros de interesse e, com eles, a importância dos fatos que constroem a realidade que nos cerca. Só que os fatos vividos e não totalmente resolvidos emocionalmente costumam se acumular em nosso inconsciente na forma de recalques, que se manifestam e interferem em nosso comportamento sem que tenhamos consciência disso – até porque eles habitam a região inconsciente da mente.

É o passado interferindo no presente. São velhos valores, totalmente desatualizados, invalidados, mas presentes em forma de lembranças inconscientes. Está na hora de acionar a máquina do tempo! Como assim? Ora, abrindo espaço para o exercício do autoconhecimento. A maioria dos erros que cometemos em nossa vida deriva da falta de percepção de nossos alcances e de nossos limites. E aumentar o conhecimento de nós mesmos permite o desenvolvimento de duas qualidades imprescindíveis ao bom funcionamento de nossa vida: a auto-estima e a autoconfiança, já referidas acima.

O inconsciente é uma parte do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. Não dispõe, por exemplo, das noções de tempo. Não sabe o que é passadoo que é presente. E é justamente no inconsciente que encontramos os conteúdos reprimidos, que não têm acesso ao consciente por conta de censuras internas. Conteúdos anteriormente conscientes, quando reprimidos por força de algum fato externo, sedimentam-se no inconsciente e podem provocar limitações por toda a vida.

Como falta a noção de tempo, o passado vira presente e nos aprisiona pelos sentimentos que já deveriam ter deixado de existir, uma vez que nossos valores, e os do mundo, mudaram. Costumamos dizer que temos que estar nos atualizando permanentemente, e levamos isso ao pé da letra, mas apenas no mundo profissional, intelectual, tecnológico. Deveríamos também atualizar nossa percepção de nós mesmos, e não apenas do mundo que nos rodeia.

Visitar o passado tem essa grande vantagem, a de limpar os escaninhos. Chamamos esse procedimento de análise, que tanto pode ser com o auxílio de outra pessoa, um profissional de psicologia – o que às vezes é indispensável –, mas também utilizando a prática da auto-análise, através da interiorização, de um corajoso e despudorado mergulho interior. Sem medos, sem pudores e, principalmente, sem autocomiseração, ou seja, sem pena de si mesmo. Trata-se de um exercício fascinante. “Conhece-te a ti mesmo” era a frase predileta de Sócrates, alguém profundamente comprometido com a educação como ferramenta de desenvolvimento humano, e não de passagem fria de conhecimentos. Com sua frase, Sócrates inaugura a moderna psicologia – que tem no mergulho interior e na máquina do tempo suas poderosas ferramentas terapêuticas.

Je ne regrette rien – “eu não me arrependo de nada” –, dizia a pequena grande Edith Piaf. Ela cantou e viveu seus versos mais preciosos: “Minhas mágoas, meus prazeres/ Não preciso mais deles/ Varridos meus amores e meus temores/ Recomeço do zero”. Quanto a mim, é claro que, se pudesse voltar no tempo no bólido do doutor Brown, procuraria fazer algumas coisas de maneira diferente, assim economizaria algum sofrimento. Como isso não é possível, olho para esses momentos com gratidão, pois sempre – e isso não é força de expressão –,sempre que algo deu errado, um novo caminho se abriu, e este, hoje eu acredito, era melhor.

“Sabe quando você pode se considerar uma pessoa adulta, livre e dona de seu destino? Quando, ao se deparar, frente a frente, com o sucesso e com fracasso, conseguir tratar da mesma forma esses dois impostores.” Essa frase é uma licença literária do poema “Se” do escritor e poeta inglês Joseph Rudyard Kipling. Ele chama o sucesso e o fracasso de impostores, pois eles sempre estarão apenas representando. A realidade, a vida como ela é, não tem sucessos, tem momentos de alegria; e não tem fracassos, tem oportunidades de aprendizado.

(fim)

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One comment

  1. E tem gente que fica por ai deixando de pensar em si pra pensar em outros…
    TU É LINDA YUYU!!!!!!!!!!!
    Não tem ninguém que apague teu brilho não…
    Podem até deixar a chama ficar bem pequenininha mas onde há verdade, e coração bom como o teu, a chama volta em forma de tocha!!!!
    Fogo de palha se apaga a qualquer momento… e momentos, já está dizendo a própria palavra, passam, se vão!
    A realidade está aqui, quando os viajantes de Marte lembrarem que precisam de oxigênio pra respirar na Terra, os que choram serão consolados, e como tudo gira no nosso planeta azul, pessoas que se sentem machucadas estarão na glória meu amorrrrrrr!
    Te amooooo lindona!
    Levanta a cabeça afinal, o planeta Terra é nosso, ou não é?
    Pena dos que acham que a vida é sempre uma linha reta…



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