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Amores possíveis

30/09/2008

Daqui por diante, esqueça o desejo de posse, a dependência emocional e o ciúme se quiser construir um relacionamento conectado com a era da individualidade

Alexandre Gondim/DP/D. A PressCarlos chegou em casa muito triste. Depois de levar um fora da namorada, tentou aplacar a sensação de desamparo e solidão bebendo. Também escutou um CD de Maria Bethânia. Selecionu a faixa três. Tenha calma era o título da canção. “Quer me deixar, não sei porque. Te prometo vir a ser do jeito que você quer“, promete a letra de Djavan. O rapaz fica ainda pior. Desde o século 19, todas as mensagens do cancioneiro, da literatura e da sociedade em geral sobre o amor romântico falam de sofrimento e dependência. Mas o sofrimento de Carlos está com os dias contados.

Mês passado, o psicoterapeuta e escritor Flávio Gikovate colocou nas prateleiras seu novo título Uma história do amor com final feliz (MG editores, R$ 34,90), apresentando quatro décadas de trabalho em consultório e vivências pessoais. As experiências o levaram à conclusão que ninguém vive um romance compatível com os tempos modernos. “Não é possível ser feliz sem respeitar a individualidade do outro e nossa própria, prazer de estar junto. Responsabilizar o parceiro por nosso bem-estar é algo que já deveria ter acabado“, dispara o autor na apresentação do livro.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para a felicidade alheia – pensamento que nasceu durante o movimento romântico – pressupõe, segundo Gikovate, que todo casal é feito de duas frações. “Acredito, justamente, no contrário. Para estar bem, cada parte do casal deve chegar inteira, capaz de lidar com os próprios medos e trabalhar as angústias“, avalia o psicoterapeuta.

Para fazer o leitor entender o raciocínio da cara metade, da outra banda da laranja, ele recorre aos primeiros episódios da vida humana. “O trauma do parto, por exemplo, é o nosso primeiro big bang. A ruptura com o aconchego e a proteção do útero materno gera um buraco que tentamos, na vida adulta, completar com o encontro daquela pessoa que gera aconchego físico“, demonstra Gikovate. Este é um traço característico do amor convencional, sempre possessivo e pouco libertário.

No mundo que privilegia tanto os programas individuais, os casais necessitam de uma união mais baseada em afinidades intelectuais. “É como se fosse uma amizade. Vejo, seriamente, as uniões com esse foco“, completa. A notícia é muito boa. Ao contrário do que pensaria um dramático como Carlos, o moço que ainda sofre pela perda de Jô. “Porque quanto mais o indíviduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma relação afetiva“.

Para os solteiros, ou mesmo para aqueles que estão pensando em voltar a sê-lo, vale aprender, antes de embarcar em uma nova história de amor, que há dois caminhos muito confortáveis apontados por Gikovate. “Viver só, estabelecendo vínculos afetivos e eróticos mais superficiais; ou construir relações baseados no amor mais elaborado. Um tipo de união que pode durar a vida inteira“, propõe o autor.

Uma história da vida real

A comerciante Lina Cavalcanti é quase 20 anos mais jovem que o seu atual marido, o terapeuta e professor de yoga, Fernando Sujan. Ela é também é espontânea, bem articulada e preocupada em ganhar o próprio dinheiro. “Imagina essa combinação na cabeça de um homem inseguro?“, questiona Sujan. Amigos e família sempre lembram a diferença de idade e o peso que ela vai ganhar no futuro. “Ainda assim, não entramos nessa paranóia do ciúme. Me sentiria bem desconfortável se pedisse à Lina para colocar uma determinada roupa. Ou controlasse seus horários“, completa.

Para que ninguém construa fantasias absurdas, os dois se provocam um pouco. “Contamos tudo ao outro. Não finjimos que o desejo por outras pessoas inexiste. Embora ninguém esteja procurando outra relação, tentamos não bancar o maluco“, admite Sujan. Desde que começaram a namorar, há oito anos, os dois têm desenvolvido cada vez mais a individualidade. “Mesmo tendo três filhos com idades que variam de três a sete anos“, reforça Lina.

Até alcançar esse terreno dorespeito à privacidade do outro, Fernando Sujan precisou passar por três casamentos anteriores. “Me culpava muito por não estar encaixado nos moldes de amor romântico. Achava que quem gostava mesmo de alguém deveria se completar no outro. A vida e os ensinamentos de Osho me ajudaram à deixar essa bobagem toda de lado“. Lina, como ele diz, já nasceu sabendo de tudo. “Apesar de nem ter chegado nos 30, ela têm uma visão tão ampla e madura de relação que me espanta. Acho que admiração, como em qualquer amizade, também conta bastante“, finaliza.

DR pode ser uma delícia

Vamos conversar?“, sugere o cabeleireiro Mario Salles à Lili, sua mulher, também cabeleireira. Discutir relacionamento (ou ter uma DR) é algo que os dois não dispensam nunca. “Detesto falar de fórmulas, mas se existe algo que nos fez chegar ao 17º ano de casamento curtindo tanto o outro é esclarecer logo algum mal-entendido. Vejo casais que passam a vida conjugal inteira acumulando essas pequenas coisas. Quando decidem retomar o diálogo, não há mais solução“, defende Lili.

Para que uma “amizade amorosa” como a que eles estabeleceram ao longo de quase duas décadas não entre em colapso, os dois preferem não discutir nada no momento de raiva intensa. “Para não ficar aos berros, jogando a culpa no outro, nós já temos um acordo. Tudo pode ser dito depois que o sangue esfriar. Há quem ache que o outro, por fazer parte de sua intimidade, está disposto a ouvir tudo. Discordo muito dessa teoria“, observa Mario.

Todos os anos, geralmente em dezembro, ele testa se sua fórmula está dando certo. “Pergunto: Lili, vocêquer casar de novo comigo? Acha que está valendo a pena a vida do meu lado? Morro de medo de levar um não“, brinca Mario. E continua. “Vou compreender se a resposta for negativa, porque a nossa história é de respeito à individualidade, da sinceridade completa. Ficaria com mágoa se ela vivesse ao meu lado por comodismo, por uma pretensa segurança. Nunca quisemos esse modelo“. Eles, de fato, descartam tal possibilidade. “Do contrário, não estaria casada pela segunda vez. E Mario, comigo, pela terceira“.

Fonte: Diário de Pernambuco – 28/09/2008
Matéria de Phelipe Rodrigues

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7 comentários

  1. Oi amiga querida,
    Maravilhosa matéria. Palavras certas, no alvo certo. Parabéns pela escolha. Aliás, você acertar não é nenhuma novidade, não é minha linda?
    Beijos.
    Vera Lúcia


  2. q matéria otima!!!
    bjus.


  3. juju,
    depois saca esse blog de uma amiga, bem legal.
    http://kesiaaraujo.zip.net/
    bjus.


  4. Adorei esse texto, e vou provedenciar a compra deste livro urgente!
    Bju, amo seu blog!o sorriso do gato!


  5. Juliaaaaa, que perfeito… adorei o post!!!!!!!!!!
    Amei mesmo… 🙂

    Xeroooooo :****


  6. Bateu com minha opinião há tempos. Nós somos completos , entramos inteiros numa relação, disse isso a quatorze anos atrás antes de namorar com minha ex-mulher, falei a ela própria dentro do carro aqui bem perto em Jardim Atlantico: -vc não deve colocar sua alegria ,sua felicidade nas mãos dos outros-! Ela refletiu e achou muito interessante este modo de pensar,mas não conseguiu por em prática! Eu nasci com a cara completa , CARA METADE? nunca admiti tal absurdo, METADE DA LARANJA,nem fruta eu sou! Na relação cada um é uma empresa constituída,a junção das duas formará uma nova marca, como vemos tantos exemplos, mas cada uma tem sua individualidade, enfim foi a coisa que li mais coerente ultimamente, parabéns pelo artigo no blog, tem a minha admiração, vou devorar este livro! E o daruma tem trazido sorte? rs …bj


  7. simplesmente amei! É isso aí! Queria mesmo viver uma relação assim…isso é um aprendizado, um exercício diário de respeito a si e ao outro. Valeu Ju, gostei!
    Gostaria de ser amada por inteiro e viver minha individualidade buscando fazer o mesmo com aquele que seria supostamente meu amante-amigo-amor-parceiro-confidente..
    bjs..
    Pat



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