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Ninguém é normal

18/11/2008

Quarta-feira à tarde, consultório psiquiátrico, sala de espera lotada. Enquanto Peter Pan tenta roubar a atenção de todos os presentes, o Homem de Lata permanece inerte em frente à televisão, como quem olha e não vê. Em outro canto, a madrasta da Branca de Neve mastiga chicletes incessantemente e, vez por outra, dá uma olhadela num espelhinho para conferir a maquiagem. A porta se abre e o Burrinho Ió deixa o consultório todo satisfeito, com a sonhada alta. Depois que passou a tomar um remedinho por dia, melhorou a relação com o Ursinho Pooh, Tigrão e companhia. Já pode administrar os problemas sem auxílio terapêutico.

Esse não é mais um conto de fadas, mas poderia ser. O vislumbre de analisar os personagens infantis à luz da psicologia não é novo. Mas, pela primeira vez, foi divulgado um relatório completo sobre as patologias de vários deles. Em O lobo mau no divã (Ed. Best Seller), a pesquisadora Laura James conta, com bom humor, como a psicoterapia pode ser útil para sanar os distúrbios psicológicos e psiquiátricos de vários deles. E, surpreenda-se: em alguns casos, os atributos que elevam alguns ao patamar de “o bonzinho da história” são, na verdade, resultado de uma neurose. Veja qual o mal que acomete alguns deles.

cinderella

DIAGNÓSTICO: Necessidade de aprovação social

Agradar a todos que a cercam, indo contra os próprios sentimentos, fez com que ela tivesse um comportamento doentio. A patologia começou após a morte da mãe – ela aceitou a madrasta e as irmãs de criação para não desapontar o pai. A reação dele, de não se opor aos maus-tratos impostos à filha pela segunda mulher, marcaram a forma de Cinderela se relacionar com o mundo. Ela passou a ter uma percepção fragmentada de si mesma. A fragilidade emocional pode ser percebida pelo fato de ela ter aceitado se casar com o único rapaz com quem se relacionou, após dois encontros (no baile e na devolução do sapato perdido na festa). A psicoterapia pode ajudar a reforçar a auto-estima e a abandonar as relações de dependência.

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DIAGNÓSTICO: Psicopatia

A inabilidade em seguir regras, combinada com a falta de empatia, pode levá-lo a arroubos de fúria. A vida instintiva é seu ponto de apoio para cometer crimes: fundamenta-se em dieta carnívora para justificar assassinatos, falsidade ideológica e estelionato. Costuma estabelecer uma relação de confiança com as vítimas. Foi com perguntas aparentemente tolas que o lobo descobriu o itinerário de Chapeuzinho, uma de suas vítimas. O sentimento de superioridade e a falta de remorsos também fazem parte da patologia. Sugere-se ainda uma tendência de distúrbios sexuais, especialmente pedofilia. A internação em uma prisão psiquiátrica seria uma medida razoável, em prol da sociedade.

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DIAGNÓSTICO: Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Tipo predominantemente desatento

Pooh tem uma extrema dificuldade em prestar atenção nos detalhes e em refletir sobre os fatos que o cercam. Como é natural da patologia, mantém um centro de atenção – no caso, a comida.

Consciente da tendência à distração, chega a tomar nota dos acontecimentos e afazeres. Mas nem isso é capaz de organizar seus pensamentos.

O transtorno que apresenta se opõe ao verificado no amigo Tigrão, que também tem TDAH, mas atende ao tipo predominantemente hiperativoimpulsivo. Ambos poderiam ser beneficiados com uma combinação de medicação e terapia comportamental. O principal ganho seria na realização de atividades cotidianas e uma melhora da auto-estima.

madrasta

DIAGNÓSTICO: Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL), com traços de narcisismo

Atraente e envaidecida disso, a madrasta começou a apresentar problemas de relacionamento com a enteada, despertando arrogância e frieza. O quadro agravou os impulsos obsessivos que já faziam parte do histórico da Rainha – como se observar no espelho. O medo inconsciente da rejeição desperta atitudes furiosas e paranóicas. O abuso do poder sobre o caçador contratado para matar Branca de Neve é uma manifestação narcisística. Ela ainda desenvolveu uma dissociação de personalidade, manifestada pela obsessão por matar a enteada, fazendo com que os objetivos de vida sejam alterados drasticamente e de forma inconseqüente. Recomenda-se terapia comportamental continuada.

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DIAGNÓSTICO: Narcisismo patológico e traços de personalidade autodestrutivos. Possível transtorno alimentar

O comportamento de Peter Pan é marcado pelos modos exagerados e pela ausência de empatia com os demais, que trata com indiferença e arrogância. O medo de responsabilidades e a insistência em conviver com fadas são sinais de um sentimento de inadequação à própria realidade – possivelmente resultado da ausência de vínculos familiares. Como todo narcisista, é no fundo extremamente frágil e inseguro, o que o torna sensível a críticas. A vulnerabilidade também se manifesta nas escolhas extremadas, no estilo oito ou 80. Os distúrbios alimentares podem ter duas causas aparentes: disputa pela atenção e medo de crescer ou envelhecer.

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DIAGNÓSTICO: Transtorno de personalidade esquizóide

A morte precoce dos pais e as seqüentes violências sofridas depois disso transformaram o Homem de Lata em uma pessoa incapaz de estabelecer vínculos afetivos, preferindo a solidão. O transtorno se enraizou quando ele passou a usar uma armadura para esconder o resultado das agressões. A inabilidade de interagir, típica do transtorno, não é sinal de ausência de sentimentos, e sim de uma dificuldade de vivenciá-los por insegurança. A situação é notoriamente desconfortável e chega a ser somatizada no corpo com articulações travadas e na ausência de um coração. Buscar ajuda com o Mágico de Oz oferece um prognóstico interessante, embora seja mais recomendável o auxílio de um psiquiatra.

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DIAGNÓSTICO: Transtorno distímico (disforia)

O aspecto cabisbaixo do burrinho, com atitudes constantes de humilhação, pode ser influenciado por uma série de fatores. A começar pela dieta adotada: a alfafa, que compõe a base de sua alimentação, é pobre em vitaminas, minerais e ácidos graxos, essenciais para manter a saúde física e mental. Morar afastado dos amigos também pode ter contribuído para um complexo de inferioridade. Mas a perda do rabo ainda na infância se configura como centro do quadro patológico. Como sintoma do transtorno, Ió se nega a pedir ajuda. Como tratamento, a fluoxetina seria uma boa alternativa, combinada com psicoterapia. Por se tratar de um mal de influência social, seria recomendada uma terapia em grupo.

alice

DIAGNÓSTICO: Não apresenta distúrbios

ALTA MÉDICA

Fruto de uma família bem ajustada, a menina Alice consegue manter a sanidade mesmo quando inserida em um mundo surreal, repleto de indivíduos desajustados. Permanece calma até mesmo sob influência de substâncias que alteraram sua percepção. É otimista sem exageros e responsável (preocupa-se com quem alimentará sua gata Dinah enquanto estiver no País das Maravilhas). Diante das adversidades, não se entrega ao desespero e busca um caminho de recuperação. A moral da menina, apesar da pouca idade, também é forte: ela institui um veredito antes da condenação do Valete de Copas. Pela lucidez e firmeza de personalidade, é dispensada do tratamento.

Risco ou aprendizado para as crianças?

Mas será que tais personagens, tão problemáticos, são bons exemplos para as crianças? Em vez de risco, as historinhas funcionam para enriquecer a capacidade psíquica dos pequenos em lidar com a adversidade. Quem defende é o psicopedagogo Carlos Aníbal, diretor do Instituto Luz e pesquisador das relações entre contos de fadas e a psicologia analítica. “Eles assimilam as sagas e fazem uma correlação com os pequenos desafios que enfrentam a cada dia. Dessa forma, o conteúdo favorece a formação saudável do ego“, explica. Esse seria o motivo para que os pequenos não enjoassem de assistir ao mesmo filme ou ler o mesmo livro – inconscientemente, estão nutrindo a psique com os símbolos tratados ali para formar a própria personalidade.

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung estudava os contos infantis e defendia que, até na vida adulta, conseguimos tirar proveito do conteúdo subjetivo que apresentam. É o que ele chamava de ligação arquetípica ou mítica, ou seja, papéis e padrões de comportamento que assumimos e que estão representados nas fábulas. Em vários momentos, a psicoterapia mostra que espelhamos o narcisismo de Peter Pan ou a necessidade de aprovação social da Cinderela. “Todos os personagens têm um ponto fraco, uma problemática. Assim como nós, desenvolvem seus complexos e, no fundo, tentam ser felizes“, completa Aníbal. No divã, não importa quem é mocinho e quem é vilão da história: todos merecem tratar dos distúrbios de comportamento que apresentam. Seja na ficção infantil, seja na vida real.

A lição de cada um – O psicanalista americano Bruno Bettelheim foi aluno de Freud e, com base na observação das historinhas infantis, publicou em 1976 o livro A psicanálise nos contos de fadas (Ed. Paz e Terra), no qual esmiuça o simbolismo contido nas sagas e fábulas. Sucesso em todo o mundo nas décadas de 1970 e 1980, a obra, mais que analisar os personagens, buscou investigar as mensagens embutidas nos contos e a participação das mesmas para a formação cognitiva da criança.

(texto de João Rafael Torres)

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3 comentários

  1. mto bom! parabens pelo blog!
    se tiver um tempo dá um look no meu tb!
    Abs
    Leo
    http://tamujunto.wordpress.com/


  2. Muito bom esse blog..perfect….
    otimos para desenvolver com as crianças…
    muito bom parabens

    sem mais até o momento …


  3. muito bom, achei super interesante e criativo falar dos personagens de estotias infantis dessa forma.da uma olhadinha no meu bloq



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