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Pensar é transgredir

20/02/2009

Eu te pergunto: Será que o “você” que você é hoje é orgulho pros que te amam? Será que seus pais, sua avó que já morreu e sua filha que ainda vai nascer se orgulhariam do “você” de hoje? Será mesmo que vale a pena passar por cima de tudo e todos pra conseguir o que se “acha” que é o melhor? Será que eles todos se orgulhariam por tudo que você fez? As coisas boas e as ruins? Ou eles sentiriam vergonha de você? Pense nisso…

Prazer, essa sou eu. Faço das palavras dela as minhas próprias. Da-lhe Lya!

palavras

“Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: ‘Parar pra pensar, nem pensar!’

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: ‘escrever a respeito das coisas é fácil’, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.”

caminho
Lya Luft

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8 comentários

  1. é sonhar é fundamental =) saudades!


  2. nooooooooooooooooosssssssssssssssssssaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa….. cada resposta dessa eu tenho no meu coração sem titubear mas…o q está no coração de cada um que passou em minha vida e ainda passa ..n me pertence…nem tenho tal controle…(tema mt bom pra refletir,,bjs)


  3. sou teu fã…
    : )


  4. Me arrepio nessa parte:
    “Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar”

    Amo vc Yu, saudades eternas…


  5. Oi amiga querida,
    Antes era fã da Lya Luft, até o dia em que li um artigo em que ela criticava pessoas que estavam preocupadas com baleias encalhadas, e que dedicavam seu tempo a se preocupar com animais ao invés de seres humanos. Para mim, uma coisa não implica com a outra, podemos fazer o bem indistintamente, aliás, estar do lado do bem é que é primordial. A partir de então, não me interessei mais pelos seus argumentos, visto que senti que nossas energias não eram semelhantes, apesar disso, como sou uma pessoa democrática, sempre respeito o direito de cada um pensar e sentir o que bem entender.
    Quando à pergunta que você faz inicialmente, acredito que minha resposta já está implícita no que acabei de escrever. Se sempre seguir meus instintos e minhas intuições e estiver em sintonia com a natureza e tudo que me cerca, respeitando, inclusive, os que pensam de maneira diversa ao meu modo de pensar, estarei com a consciência tranquila, e sentirei que sempre estarei com meus deveres cumpridos, mesmo que faça tudo isso de forma a não ser entendida por todos. Não preciso me orgulhar disso, nem que se orgulhem de meus atos, o importante é passar autenticidade e dar sempre o melhor do que temos para dar. Bons exemplos, palavras ditas no momento certo,sentimentos sinceros, mesmo que pareçam contraditórios, etc… permanecem para sempre na lembrança das pessoas e isso, acredito já será mais do que suficiente.
    Amo você, pois você passa tudo isso para mim. Espero que você sinta essa mesma energia que a você envio, com muito carinho.
    Beijos,
    Vera Lúcia


  6. Não sabia desse texto da Lya… depois vou procurar ler. Não compartilho dessa idéia dela. Concordo com vc. Mas tb entendo q às vezes falamos coisas q nos arrependemos depois. De repente… quem sabe ela não se arrependeu? Enfim.
    Vc tb está no meu coração. Te amo, amiga!


  7. ‘Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.’

    Adoro essa frase…


  8. Maravilhoso o texto pois nos propicia o pensar.



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